domingo, 17 de janeiro de 2010

Um café com Bruno Miranda Neves

Professor da rede pública, pedagogo e ativista social, Bruno Miranda Neves, o Bruno Nareba, lança nesta semana o seu primeiro livro.

Fruto de seu trabalho de conclusão de curso, o livro "O ensino médio integrado no contexto da mundialização do capital" revela as preocupações do jovem autor com as discussões sobre trabalho e educação.

Por isso, nesta semana, Bruno toma café conosco e explica como surgiu seu interesse por essa discussão e também aponta caminhos para uma educação transformadora.

Ex-integrante do movimento estudantil, o pedagogo tece críticas ao sistema capitalista e aponta o investimento em tecnologias ecologicamente comprometidas como alternativa para os rumos do país.

Nesta segunda, dia 18, você lança o livro "O ensino médio integrado no contexto da mundialização do capital". Quais são as idéias apresentadas na obra?
No livro, tentei fazer uma análise da situação atual da sociedade brasileira para entender, principalmente, como os processos de trabalho atuais se relacionam com a educação escolar. Fiz uma reflexão sobre as possibilidades de unificação do ensino médio com a educação profissional numa perspectiva de garantia da formação humana, científica e tecnológica. Consideram que há uma separação perversa entre os tipos de trabalhos (manual e intelectual) com reflexos nos processos educativos.

Como sabemos os empresários estão interessados em profissionais adaptáveis as suas necessidades, e, não em contratar pessoas capazes de produzir ao mesmo tempo em que atuam para transformar as relações sociais mais humanas e solidárias.

Como foi o processo de elaboração do livro? Por que resolveu pesquisar esse tema?
Trabalho e educação são duas coisas fundamentais em nossas vidas. E por isso, tem recebido tanta atenção. Acontece que o pensamento hegemônico faz uma verdadeira pregação responsabilizando os trabalhadores desempregados e subempregados por suas próprias condições. Dizem sempre: "estude e conseguirá emprego" ou "estude e será promovido". Resta dizer como nessa sociedade excludente na qual vivemos garantirá emprego para todos que se qualificarem.

Quanto tempo durou e como foi feita a pesquisa?
O trabalho foi feito durante um ano e envolveu leitura, discussões, participações em seminários, debates, etc. Na verdade a pesquisa não tem fim, é parte das minhas preocupações e da minha vida. Tenho estabelecido diálogos com pesquisadores e educadores que estudam este tema. Sobre o livro em sim, ele é oriundo da minha monografia de conclusão de curso.

Quais são as principais diferenças entre o ensino médio integrado e o antigo ensino médio técnico, proposto, inclusive, pela lei 5.672/71?
Naquele período, buscava-se formar mão-de-obra de forma rápida ainda sob o ideário da Teoria do Capital Humano e ainda havia a preocupação com o conhecimento das ciências da natureza. Por outro lado, era sonegado o conhecimento das relações humanas. Aquela lei também tentou diminuir a pressão pelo ingresso no ensino superior das classes subalternas. Entre fazer um curso técnico para tentar trabalhar e buscar uma formação que desse alguma perspectiva de entrar numa universidade, obviamente, os trabalhadores tenderam a escolher os curso técnicos, o que daria alguma melhoria na chance de conseguir um emprego. O que é perverso.

Hoje, a educação como um todo está pautada na lógica das competências. Por ela, quem souber aprender, souber ser, souber estar, alcançará e manterá seu emprego. Balela! Estamos vendo a preocupação com a apropriação das ciências sociais e naturais, da filosofia e das artes irem por água abaixo. Quem se beneficia com os produtos das riquezas quer que nos enquadremos no "Comportamento geral" como denunciou Gonzaguinha.

A proposta de Ensino Médio Integrado busca, justamente, articular num todo estruturado os conhecimentos das culturas que nos constituem, dos modos de produzir e do desenvolvimento das ciências, para que possamos nos entender no mundo contemporâneo e termos mais opções de ajudar a melhorá-lo.

Após a lei 5.672/71, a maior parte das escolas de ensino médio oferecia uma formação profissional para os alunos. No entanto, a proposta não deu certo e, muitos críticos apontam esse como um dos aspectos que contribui para a perda da qualidade de ensino nas escolas públicas.

Você concorda com essa afirmação? Existe o risco de acontecer o mesmo com o ensino médio integrado? Por quê?
Todo processo de expansão traz consigo a dificuldade de manter/ aumentar a qualidade. Os processos sociais só podem ser definidos pelas práticas e lutas travadas cotidianas. Então, a proposta de uma educação unitária, politécnica e emancipadora pode ser mal interpretada e até mesmo, mal implementada para atender a outros interesses.

De que forma a mundialização do capital gera impactos na formação profissional dos jovens brasileiros?
Assistimos diariamente pela televisão notícias sobre o 'nervosismo' do mercado financeiro internacional. E acabamos não indagando que mercado é este, como ele funciona. A idéia básica é de que a riqueza das empresas tem sido cada vez mais gerada pela associação do capital financeiro internacional com grandes grupos econômicos que 'investem' nos países que garantem lucro mais rápido e com menos riscos. Quer dizer: em países cujas leis trabalhistas sejam precárias e a força de trabalho possa ser mais explorada.

As empresas internacionais buscam facilidades para produzir como incentivos fiscais, empréstimos de dinheiro público, aplicação de novas e antigas tecnologias, etc. O importante é lembrar que toda a riqueza acumulada pelos grandes capitalistas advêm da exploração e da transformação da natureza pelo trabalho que nós realizamos diariamente. E que portanto, toda a dinheirama movimentada pelo mercado financeiro é retirada da produção real de bens e serviços.

Um exemplo interessante desta exploração é o próprio mercado de crédito que vem seduzindo os trabalhadores a contratar empréstimos, a se endividar. No final das contas o trabalhador tem mais um patrão para lhe retirar o produto do trabalho, sem perceber o que está ocorrendo.

Esta semana a imprensa noticiou que o Brasil exportou muito para a China, acontece que exportou produtos de baixo valor (grãos, minerais, etc...), e está mantendo o real valorizado para garantir a importação destes produtos e a entrada de produtos importados para manter a inflação baixa de maneira quase fictícia, e de quebra induz a redução do número de industrias. Mesmo dentro do capitalismo, o Brasil poderia assumir outro papel se investisse na produção de ciência e tecnologia e garantisse a venda de produtos com alto valor agregado pelo trabalho humano. Poderíamos deixar de vender soja e laranja e começar a criar tecnologias ecologicamente comprometidas e concorrer de outra forma no mercado mundial.

O ensino médio é apontado por muitos educadores como um segmento sem identidade, espremido entre o ensino fundamental e o ensino superior. E isso mesmo? Quais seriam as alternativas para torná-lo mais atraente para os jovens e reduzir os índices de evasão?
O problema desta etapa de ensino é parte dos problemas gerais e estruturantes da realidade brasileira. Precisaríamos pensar nos desafios ecológicos, econômicos, políticos e sociais e a partir daí, começar a construir propostas curriculares baseadas nas reais necessidades da população. Obviamente que para isto, teríamos que atacar com força o problema do desemprego. Hoje, os jovens são chamados a ocupar os postos de emprego das gerações adultas com piores salários e condições de trabalho. Isto, encurta o tempo necessário para sua formação humana – vista aqui de forma ampla.

Seria o desafio posto por Gaudêncio Frigotto, Maria Ciavatta, Marise Ramos e outros: o de articular o trabalho, a ciência e a cultura numa nova proposta educacional.

Quais serão os impactos ampliação da oferta obrigatória de educação dos seis aos 17 anos no Brasil? As redes públicas estão preparadas para dar esse passo?
Esta é uma reivindicação histórica dos movimentos populares em nosso país. Veja que éramos um dos poucos países da América Latina em que o Ensino Médio não era obrigatório. Temos que garantir investimentos financeiros, formação profissional continuada, valorização dos trabalhadores em educação, etc, para realizarmos, de fato, a universalização da educação básica – e também da educação superior – pautada na qualidade, no combate a todas as formas de discriminações e na gratuidade, por entendermos a educação como um direito inalienável dos seres humanos.

A quem é destinado seu livro? A linguagem é acessível para quem não trabalha com educação?
Espero que a forma como apresentei minhas idéias esteja acessível a uma ampla parcela de trabalhadores jovens e adultos preocupados com os atuais rumos de nossa sociedade. O livro é destinado a todos aqueles que trabalham, lutam e sonham com a construção de uma sociedade pautada em valores éticos, estéticos, ambientais e solidários. Certamente, atrairá o interesse de educadores, economistas, filósofos, e de todos aqueles preocupados com os processos educativos na sociedade contemporânea.


Aquisições:



Editora Multifoco


http://www.editoramultifoco.com.br/index.asp



Tel: (21) 2222-3034


5 comentários:

HIPOLYTUS disse...

Alessandra, folgo em saber que uma pessoa tão jovem como você, criou um blog simpático e 'jóia' no que concerne ao aspecto cultural, esse artigo de luxo que não graça em abundância nas TVs do Brasil, infelizmente.
Estudei em 1981, Letras/UERJ e como você, minha paixão são os livros. Brinco com os amigos que ser pobre, tudo bem, mas além de pobre e burro, 'Dio mio', seria melhor jogar-se da ponte Rio/Niterói: rsrsrs....
Estou formando grupos para Rodas de Leituras (creio piamente, que a cultura, é o modo mais inteligente, de paulatinamente, irmos minimizando a violência no nosso estado).
Espero, quiçá, no futuro, possamos trocar 'figurinhas' 'meravigliose' sobre livros...livros...livros....e livros....
Abraços e tenha um excelente ano!
Obs.: Desculpai-me entrar por aqui, mas, o meu pc é como um jumentinho (só faz o que lhe dá na 'telha') e não consegui de jeito nenhum entrar pelo lugar conveniente.
Bons augúrios!

Tecelã disse...

Que excelente matéria, Alessandra! Muito importante divulgar trabalhos como este do Bruno.
Parabéns! Grande abraço.

Alebizoni disse...

Hipólito, estou à disposição para divulgar seu trabalho. Aqui na barra ao lado tem o meu e-mail.

Fico feliz que tenha gostado do blog. Espero que o divulgue entre os seus amigos para a corrente de Mídia e Educação crescer.

Abraços!

Alebizoni disse...

Oi Tereza, adorei seu blog!

E agradeços seus elogios.

Saudades!

Tecelã disse...

Obrigada, Alebizoni
já estou te seguindo.
bj.